Sobre resistência, neurose e Kung Fu

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Defesas, formas e Kung Fu. É sobre isso que falaremos no post de hoje!

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Na última segunda-feira eu estava participando das atividades  de um núcleo de Kung Fu na Barra da Tijuca e um praticante disse que havia retornado a faculdade do curso de Letras e que em uma de suas aulas um professor de literatura disse que desejava que sua aula fosse um espaço de resistência. Como psicólogo, essa fala me soou muito mal. A verdade é que eu não sei o que esse professor disse mas no meu entendimento, como uma pessoa poderia ler com qualidade se estivesse resistindo aquele conteúdo?! Este estranhamento se deve ao olhar que dou para a resistência é de um psicólogo Gestalt-Terapeuta.  Imagino que o professor estivesse falando algo no campo da crítica.

Mas o que é resistência para um Gestalt-terapeuta?

Quando abordamos a resistência dentro da Gestalt-Terapia, é importante ressaltar que estamos  abordando recursos defensivos  que permeiam a constituição de um sujeito. Em princípio a resistência atua na busca pela autopreservação de um indivíduo, desse modo este recurso é extremamente valioso, pois é o que mantém, em princípio, a pessoa sã. A resistência atua  na tentativa de conservar a forma com que vivemos habitualmente.

Em sua forma original, a resistência é bastante útil, porém, algumas vezes essas defesas se cronificam  e passam a ser utilizadas de  forma acrítica na maior parte das situações. Quando isso ocorre ,geralmente, há uma percepção reduzida sobre esta maneira de se defender e desta  forma, a resistência assume uma forma neurótica.

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Tal qual uma pele de cobra,  a resistência neurótica já teve sua importância.

Podemos buscar várias situações para ilustrar a resistência  e sua forma neurótica. Não é incomum, por exemplo, encontrarmos pessoas que  tem um tom agressivo , que dá a impressão que a pessoa está sempre brigando. Podemos imaginar que essa pessoa é oriunda de um ambiente extremamente hostil. Em algum momento essa forma agressiva foi extremamente importante para a pessoa. Seja para que ela fosse ouvida, seja para ser respeitada em sua individualidade. Para essa pessoa, o tom agressivo pode ser  uma forma encontrada por ela para manter outras pessoas afastadas, que por ventura poderiam feri-la. Em algum momento se expressar de forma mais agressiva teve sua importância para essa pessoa, contudo quando esta forma fica cristalizada esse indivíduo passa a “atacar” qualquer pessoa que se aproxime, mesmo que essa pessoa não tenha dado nenhum indicio que fosse desrespeita-la.

Esta forma acrítica conservada pela resistência pode ser chamada de neurose.

Em minha experiência no Ving Tsun, em vários momentos me dei conta várias vezes das minhas neuroses. Existe um episódio ,em especial, que passei com meu Mestre, Julio Camacho, que sempre gosto de lembrar. Em uma das minhas primeiras experiências com Chi Sau,  Mestre Julio Camacho fez a conexão comigo e pediu para eu colocar o mínimo de energia que eu pudesse. Como um discípulo obediente coloquei o mínimo que achava necessário, após realizar essa tarefa, Mestre Julio continuou pedindo para que eu colocasse cada vez menos energia. Nesse momento comecei a ficar confuso e ao mesmo tempo, comecei a fazer o meu melhor para atender o pedido do meu mestre, que cada vez mais pedia menos energia e não só isso, pedia também para eu avaliar qual era o mínimo necessário para estabelecer essa conexão. Deste modo comecei a perceber que eu de fato conseguia colocar menos energia do que eu entendia como o mínimo, dessa forma comecei a um processo de começar a atualizar minha percepção sobre mim mesmo.

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Através da sensibilidade de Mestre Julio Camacho conseguimos descobrir muito de nós mesmos.

Com a percepção de que em uma tarefa relativamente simples eu utilizava energia além do necessário, comecei a questionar em quais outros aspectos da minha vida eu fazia mal uso de minha energia. A partir dessa proposta de Mestre Julio, comecei a perceber que várias das dificuldades e travas que eu tinha na minha vida se davam por um deslocamento enérgico desproporcional ao que era necessário. Desta forma, eu acriticamente colocava muita energia nas coisas que eu fazia e acompanhando  estes excessos vinha muita expectativa, cobrança e frustração e estes sentimentos acabavam por tirar qualidade destas coisas que eu fazia.

Através destas inserção bem específica do Mestre Julio Camacho, pude através do Kung Fu, iniciar um processo de sensibilização que começou naquele dia e vai se aprimorando cada vez mais e que está  sendo levado para todo o resto da minha vida.

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Discípulo de Mestre Júlio Camacho. Iuri Alvarenga “Moy Yau Lei” iurial1v@gmail.com

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About Resistance, Neurosis and Kung Fu.

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Defenses, forms and Kung Fu, that’s what were going to talk about on this post.

Last Monday I was praticing Kung Fu in Barra da Tijuca and a practitioner said that he had returned to the School of Literature and that in one of his classes a professor said that he wanted his class to be a space of resistance. As a psychologist, this speech sounded very bad. The truth is I do not know what this teacher  meant exactly, but in my understanding i couldn’t belive how can a person  even start reading with quality if he was resisting that content ?! This strangeness one should look at that give for resistance is from a Gestalt-Therapist psychologist. I imagine the professor was saying something in the field of criticism but that’s not how it goes in psychology.

But for what is resistance to a Gestalt-therapist?

When we talk about resistance in Gestalt Therapy, it is important to notice that we are talking about  defensive features that permeate the constitution of a individual. In principle, resistance acts on the self-preservation of an individual, so this resource is extremely valuable, since it is what maintains, in principle, the person sane. Resistance acts in the attempt to preserve the way we habitually live.

In its original form, resistance is very useful, but sometimes these defenses become chronical and used uncritically in most situations. When this occurs generally there is a reduced perception about this way of defending and in this way resistance takes on a neurotic form.

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Like a snake’s skin the neurotic resistance has already had it’s importance.

We can look for several situations to illustrate the resistance and its neurotic form. It is not unusual, for example, to find people who have an aggressive tone, which gives the impression that the person is always struggling. We can imagine that this person comes from an extremely hostile environment. At some point of his/her this aggressive form was extremely important to the person. Whether it was to be heard or to be respected in your individuality. For this person, the aggressive tone may be a form found by her to keep other people away, who could hurt her. At some point expressing more aggressively has had its importance for this person, however when this form is crystallized this individual will “attack” any person who approaches, even if that person has not given any indication of disrespect

This uncritical form preserved by resistance can be called neurosis.

In my experience with the Ving Tsun, at various times I realized several times about my neurosis. There is an episode in particular that I spent with my Master, Julio Camacho, that I always like to remember. In one of my first experiences with Chi Sau, Master Julio Camacho made the connection with me and asked me to put as little energy as I could. As an obedient disciple, I put as little as I thought it wa necessary. After completing this task, Master Julio kept asking me to put less and less energy. At that moment I startedto be confused and at the same time, I began to do my best to meet the request of my master, who increasingly asked for less energy and not only that, he also asked me to evaluate the minimum needed to establish this connection. In this way I began to realize that I could actually put less energy than I understood as the minimum, so I began a process of starting to update my perception of myself.

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Through Master Julio Camacho sensiblity we are able to find out much of ourselves.

With the perception that in a relatively simple task I used energy beyond what was necessary, I began to question in what other aspects of my life I misused my energy. From this proposal of Master Julio, I began to realize that several of the difficulties and obstacles that I had in my life were due to an energetic displacement disproportionate to what was necessary. In this way, I uncritically put a lot of energy into the things I did and following these excesses came a lot of expectation, collection and frustration and these feelings ended up taking quality from these things that I did.

Through these very specific insertion of Master Julio Camacho, I was able through Kung Fu to initiate a process of sensitization that began that day and is getting better and better and that is being taken for the rest of my life.

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An disciple of Master Julio Camacho Iuri Alvarenga “Moy Yau Lei” iurial1v@gmail.com

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Desenvolvendo a Atenção Através da Relação Mestre-Discípulo/ Developing Attention Through Master-Disciple Relationship

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Qual é o diferencial do Kung Fu? Seriam os movimentos precisos? Eficiência técnica? Melhoria da consciência corporal?

Todos estas particularidades são, em minha opinião, diferenciais do Kung Fu, mas no entanto, acredito que o que torna esta arte tão diferente é o que chamamos de vida Kung Fu.  Mas o que seria isso?  Na base da vida Kung Fu estariam os relacionamentos desenvolvidos no círculo Marcial, sobretudo a relação mestre e discípulo.

Mas o que essa relação mestre discípulo tem de tão especial?

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Mestre Julio Camacho acompanha seu Mestre Leo Imamura na visita de seu  Meste Moy Yat. Na imagem de 98, o encontro de 3 gerações.

A princípio é uma relação que é calcada no aprendizado, mas que não fica restrita ao aspecto físico, principalmente porque tal perspectiva seria limitante e limitada. O aprendizado transcende o aspecto marcial do Kung Fu. No meu modo de ver, a luta é a roupagem que o Kung Fu usa para que possamos desenvolver algo muito mais precioso, que é a atenção.

Em quais situações de vida, verdadeiramente usaríamos um soco? Pode ser que algumas situações realmente requeiram o uso do soco… mas em quantas situações de vida nos beneficiaríamos de uma atenção refinada? Arrisco-me dizer que em todas!

Enquanto uma relação baseada em lutas se dá principalmente em um ambiente propício para lutas, uma relação baseada na atenção pode se dar em qualquer lugar, fazendo praticamente qualquer coisa, como pintar paredes ou simplesmente almoçando. Depende apenas da atitude mental voltada para atenção.

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É possível desenvolver seu Kung Fu pintando paredes, inclusive. Na imagem, o antigo núcleo da Avenida Nelson Cardoso.

Quando estamos imersos em uma relação, sempre há trocas e novas experiências surgem a partir destas trocas. Quando nos colocamos dentro de uma relação mestre e discípulo, a convivência vai gerando situações para que o Kung Fu e atenção sejam desenvolvidos.

Essa semana reuni para almoçar com Mestre Julio Camacho e outros discípulos.  Neste almoço, pudemos falar sobre um projeto que estamos desenvolvendo. Um projeto sobre Páginas de Kung Fu na internet. Neste projeto, alguns discípulos, supervisionados por Mestre Julio Camacho, farão postagens regulares sobre temas diversos, reunidos ao redor da temática Kung Fu.

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Dentro de um processo de Vida Kung Fu, muitas vezes nos vemos em situações que normalmente não viveríamos.

Mestre Julio Camacho falava sobre a dificuldade de muitas pessoas em gerar um tema e depois desenvolvê-lo. Segundo ele, a muitas pessoas tem dificuldade em gerar temas, pois ficam dependentes de uma eventual inspiração,  ou do surgimento de uma ideia. Contudo esse problema pode  ser contornado através de uma dinâmica relacional entre mestre e discípulo, pois esta relação tem um potencial gerador experiências diversas em um âmbito Kung Fu, desde que o discípulo permaneça atento para captar o que está sendo transmitido.

No âmbito da clínica psicológica,  como se é de esperar,  a presença e a atenção do psicólogo ao que está sendo transmitido são fundamentais para  o andamento do processo terapêutico, pois todo e qualquer processo terapêutico é iniciado no momento  em que é constituída uma relação e  dentro dessa relação surgirão os temas  pertinentes do processo de vida de cada pessoa.

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A atenção refinada pela convivência com Mestre Julio Camacho  me desenvolve como psicoterapeuta.

A partir do surgimento de temas, a atenção de um terapeuta é muito importante, mas essa se dá em vários níveis. É necessário prestar atenção não só no que é dito, mas também no que não é dito, no que é mostrado através de gestos e movimentos, e também nas coisas que a pessoa não consegue ver ou perceber, mas que estão contidas em sua comunicação. A percepção destes aspectos é o que move a terapia, e é através dessa atenção que novos temas vão sendo explorados.

Considerando que estar próximo ao  mestre em situações de vida Kung Fu, permite a ampliação da percepção e da capacidade de prestar atenção, acredito que posso me tornar um psicoterapeuta melhor, pois o potencial gerado dentro dessa relação refina nossas principais ferramentas de trabalho….

Mas isso é só um psicólogo falando… Acredito que qualquer que fosse a profissão a fala seria a mesma. Até a próxima!

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Discípulo de Mestre Julio Camacho Iuri Alvarenga “Moy Yau Lei” iurial1v@gmail.com

Developing Attention Through Master-Disciple Relationship

What is the big deal about Kung Fu? The precise movemnts, maybe or  the technical efficiency? Improvement of body awareness?

All these particularities are, in my opinion, Kung Fu differentials, but nevertheless, I believe that what makes this art so different is what we call Kung Fu life. But what would that be? At the base of Kung Fu life would be the relationships developed in the martial circle, especially the master and disciple relationship.

But what does this master-disciple relation is so special?

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Master Julio Camacho accompanies his Master Leo Imamura on his Master visit. An encounter of three generations, in 1998.

At first it is a relationship that is based on learning, but it is not restricted to the physical aspect, mainly because such a perspective would be limiting and limited. The learning transcends the martial aspect of Kung Fu. In my view, the fight is the dress that Kung Fu uses so that we can develop something much more precious, which is attention.

Which life situations would we truly need to use a punch? It may be that some situations ,actually, require it’s use … but in how many life situations would we benefit from refined attention? I venture to say that in all!

While a relationship based on fighting occurs mainly in  fighting environments, a relationship based on attention can occur anywhere, doing just about anything.

We may be developing our Kung Fu painting walls or simply having lunch.

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It’s possible to develop Kung Fu even painting walls. On image Vladmir Anchieta and Fernando Xavier.

When we are immersed in a relationship, there are always life exchanges and new experiences emerge from these exchanges. When we put ourselves into a master and disciple relationship, when together  some situations to the development of attention are created through Kung Fu experiences.

This week I met Master Julio Camacho and other disciples for lunch. While having a meal we were able to talk about a project that is being developed. A project about Kung Fu Pages on the internet. In this project, some disciples, supervised by Mestre Julio Camacho, will make regular posts on different themes, gathered around the Kung Fu theme.

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In a Kung Fu life process, we often see ourselves in some situations that we wouldn’t normally be.

Master Julio Camacho talked about the difficulty of many people in generating a theme and then developing it. According to him, many people find it difficult to generate themes because they are dependent on an eventual inspiration, or the emergence of an idea. However, we can go around this problem by having a relational dynamic between master and disciple, for this relationship has a potential to generate diverse experiences in a Kung Fu scope, as long as the disciple pays attention for what is being transmitted.

In the psychological clinic, as many might expect, the presence and attention of the psychologist to what is being transmitted are fundamental to the progress of the therapeutic process, since any therapeutic process is initiated at the moment when a relationship is formed and Within this relationship will arise the pertinent themes of the process of life of each person.

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The refined attencion developed by being close to my master helps me become a better psychotherapist

From the emergence of themes, the attention of a therapist is very important, but this takes place on several levels. It is necessary to pay attention not only to what is said, but also to what is not said, what is shown through gestures and movements, and also in things that the person can not see or perceive, but which are contained in their communication. The perception of these aspects is what moves the therapy, and it is through this attention that new themes are being explored.

Considering that being close to the master in Kung Fu life situations, allows the expansion of perception and ability to pay attention, I believe that I can become a better psychotherapist, because the potential generated within this relationship refines our main work tools … .

But this is just a psychologist talking … I believe that whatever profession the speech would be the same. Until next time!

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An Disciple of Master Julio Camacho. Iuri Alvarenga “Moy Yau Lei” iurial1v@gmail.com

Figura, Fundo e Kung Fu/ Figure, Ground and Kung Fu

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Porque dentro do Kung Fu um soco pode significar tanta coisa? É o que tentarei explicar a seguir!

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Há algumas semanas, eu estava tomando café da manhã com Mestre Julio Camacho e outros praticantes de Kung Fu, quando surgiu o assunto de que havia muitas distorções acerca de termos de alguns termos de psicologia. Muitos não sabem, mas Mestre Julio, assim como eu, também é psicólogo. Ele falava ,em tom de brincadeira, de certo praticante que estava fazendo uma série de confusões acerca do conceito de figura e fundo. Fiquei pensando algum tempo em como explicar essa ideia que para mim é tão natural, para que  outros praticantes pudessem entender sem criar novos problemas para si.

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Tanto em situações cotidianas, como um café da manhã, quanto em situações de prática, Mestre Julio Camacho consegue mobilizar a enxergar outros paradigmas. O efeito que teve em mim foi: Como um praticante de Kung Fu/Psicólogo pode utilizar Kung Fu para falar de Psicologia? E Como utiliza psicologia para falar de Kung Fu?

Com esse pensamento em mente, recentemente eu acompanhei o processo de aprendizado de um rapaz que tinha acabado de se inscrever no Ving Tsun Experience, programa que funciona como porta de entrada para o Kung Fu.  Durante a sessão desse rapaz, que se chama Felipe, pudemos observar alguns aspectos importantes para o Kung Fu, mas gostaria de ressaltar o trabalho de soco. Depois de algumas tentativas, me inspirei em algo que o Mestre Thiago Pereira me disse e perguntei: “Para que serve esse soco que a gente tá trabalhando?!”. O rapaz disse que para ele, o soco servia tanto para agredir, quanto para medir distância. Concordei com ressalvas pois perguntei porque então não estávamos nos acertando e porque a distância entre nós não mudava. O rapaz, assim como eu fiz, outrora não soube o que responder. Apontei uma série de coisas que trabalhamos a partir da configuração do soco, como equilíbrio e geração de energia a partir de uma base estática.

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Muitas vezes no Kung Fu, um toque sutil pode gerar uma série de informações. Na imagem, uma prática de Ving Tsun Experience.

Ao resgatar esse tema que já nos é familiar, gostaria de trazer também um conceito da Psicologia da Gestalt, uma linha teórica bastante conhecida dentro da psicologia.

No início do século XX, na Alemanha, alguns psicólogos se debruçaram no estudo sobre a forma com que os seres humanos organizam suas percepções e sensações. A partir desses estímulos, estes estudiosos perceberam que as pessoas se organizam em Gestalten, termo em alemão cujo significado se aproxima de “forma” ou “totalidade”.

Através de muitos estudos e observações, grandes expoentes da Psicologia da Gestalt como Wertheimer, Koffka e Köhler começaram a perceber que a “totalidade é maior que a soma das partes. “

Mas o que isso quer dizer?

De forma resumida, quer dizer que um elemento isolado necessita de um contexto para que seja atribuído a ele um significado. Por exemplo, uma linha reta desenhada em um papel, isoladamente ela não significa muita coisa, mas dentro de uma composição com outras retas pode formar, por exemplo a representação da planta baixa de uma casa. Logo pode-se afirmar que as partes observadas separadamente não possuem as mesmas características de um todo, e portanto a totalidade é maior que a soma das partes.

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Por muitos anos, o vaso de Rubin foi utilizado para ilustrar o conceito de figura e fundo.

Este postulado se apoia no conceito de figura e fundo. Quando trazemos esse conceito para as relações humanas, pode-se afirmar que o fundo diz respeito ao organismos, ao meio ambiente e as experiências prévias de um indivíduo, enquanto a figura é a parte que se destaca neste fundo. Quando inserimos novos elementos em um fundo, a configuração e a percepção do todo mudam por completo, o que pode mudar a percepção total ou parcial de uma figura, pois sua emergência pode vir repleta de novos significados. Quando essa reconfiguração é consciente podemos chamá-la de insight, awareness, ou simplesmente de tomada de consciência.

Quando Felipe chegou para praticar naquele dia ele tinha uma concepção sobre o soco, que condizia com suas experiências prévias e que fazia parte do seu fundo psicológico. Para ele, o soco quando o soco emergia enquanto figura, era um elemento que servia tanto para externar agressividade quanto para medir distância, contudo durante a sessão foram aparecendo novos elementos que passaram a compor um novo fundo para Felipe. Em um momento eventual, quando houver a necessidade de Felipe utilizar o soco dentro de uma sessão de Ving Tsun Experience novamente, ele provavelmente terá um entendimento mais denso sobre esse elemento e certamente em outras oportunidades ele estará menos ávido para fechar um significado sobre o que está praticando e estará mais atento as possibilidades geradas pelo Kung Fu.

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Discípulo de Mestre Julio Camacho. Iuri Alvarenga “Moy Yau Lei” iurial1v@gmail.com

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Why does the Punch may have many meanings on Kung Fu? That’s what i’ll try to explain next!

A few weeks ago, I was having breakfast with Master Julio Camacho and other Kung Fu practitioners when a subject came to the table that there were many distortions about some terms of psychology. Many do not know, but Master Julio, is also a psychologist, just like me. He was talking  about of a certain practitioner who was making a series of confusions about the concept of figure and background. I started to think how to explain this idea which is so natural to me so that other practitioners could understand  it without creating new problems for themselves.

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Either in daily situations, such as breakfast, as in practices, Master Julio can mobilize people to see other paradigms. The effect on me was How can a Kung Fu Practitioner/Psychologist could use Kung Fu to talk about psychology? And how do a Psychologist could use pyschology to talk about Kung Fu?

With that thought in mind I started last week. I was helping through the learning process of a young man who had just signed up for the Ving Tsun Experience, a gateway program for Kung Fu. During the session of this lad, who is called Felipe, we could observe some important aspects for Kung Fu, but I would like to emphasize the punch. After a few attempts, I was inspired by something that Master Thiago Pereira told me and asked: “What is this punch? What are we working through it ?!”. Felipe said that the punch served both to attack and to measure distance. I agreed with reservations because I asked why we were not hitting each other and why the distance between us did not change. The boy, as I did in the past, did not know what to answer. I pointed out a number of things that we were working from the punch configuration, such as balance and power generation from a static basis.

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Many times on Kung Fu, the slightest touch might bring lots of information. On this pictute a Ving Tsun Experience Pratice.

Since I’m bringing this theme back, I would also like to bring a concept of Gestalt Psychology, a theoretical line well known within psychology.

In the early twentieth century, in Germany, some psychologists have studied the way humans organize their perceptions and sensations. From these stimuli, these scholars have realized that people are organized in Gestalten, a German term whose meaning approaches to “form” or “totality”.

Through many studies and observations, great exponents of Gestalt Psychology such as Wertheimer, Koffka, and Köhler have begun to realize that “totality is greater than the sum of the parts.”

But what does that mean?

Briefly, it means that an isolated element needs a context in order to be assigned a meaning. For example, a straight line drawn on a paper, alone it does not mean much, but within a composition with other straight lines can form, for example the representation of the floor plan of a house. It can thus be said that the parts observed separately do not have the same characteristics of the whole, and therefore the totality is greater than the sum of the parts.

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For many years, The Rubin Vase was used to illustrate the concept of figure and ground.

This postulate is based on the concept of figure and ground. When we bring this concept into human relations, it can be said that the ground concerns the organisms, the environment and the previous experiences of an individual, while the figure is the part that stands out in this ground. When we insert new elements into a ground, the configuration and perception of the whole changes completely, which can change the total or partial perception of a figure, because its emergence may come full of new meanings. When this reconfiguration is conscious we can call it insight, awareness, or simply awareness.

 When Felipe arrived to practice that day he had a conception of the punch, which was consistent with his previous experiences and which was part of his psychological background. For him, the punch when the punch emerged as a figure, was an element that served both to express aggression and to measure distance, yet during the session new elements appeared that formed a new fund for Felipe. At an eventual moment, when there is a need for Felipe to use the punch within a Ving Tsun Experience session again, he will probably have a more dense understanding about that element and certainly on other occasions he will be less eager to close a meaning about what Is practicing and will be more aware of the possibilities generated by Kung Fu.

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Disciple of Master Julio Camacho.   Iuri Alvarenga “Moy Yau Lei” iurial1v@gmail.com

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Kung Fu e Frustração / Kung Fu and Frustration

 

 

 

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Em algumas organizações de Artes Marciais, em especial no Kung Fu  é comum encontrarmos cerimônias que marquem a mudança de nível de um praticante. Neste tipo de cerimônia não é incomum ouvir algum praticante proferindo a palavra “Frustração”  ao falar sobre a sua experiência no nível anterior. Mas o que é frustração?

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Cerimônia de passagem de nível em que acessei o segundo nível do sistema tradicional de Ving Tsun.

 

A frustração pode ser entendida como uma tensão gerada pela não satisfação de necessidades ou desejos. Esse sentimento pode estar associado a uma fala muito pejorativa, no sentido que pessoas frustradas são mal realizadas e estão presas a situações do passado.
Certa vez, Mestre Julio Camacho estava falando sobre como o Kung Fu preparava as pessoas para situações de vida e disse algo parecido com o que transcreverei a seguir: “Muitas vezes as pessoas associam idade a sabedoria, mas isso não necessariamente se traduz em verdade. Não é incomum encontrar alguém idoso e abobalhado, ao mesmo tempo que não é impossível encontrar alguém jovem e com muitos recursos para resolver seus problemas.”

Você pode estar se perguntando… Mas o que tem isso a ver com Kung Fu?

Bem, dentro da dinâmica de vida kung fu, constantemente somos colocados em situações em que normalmente não vivenciaríamos, isso inclui mas não está restrita a prática Marcial.

De uma maneira geral, na vida cotidiana não é incomum que as pessoas tenham seus objetivos frustrados, quando estão apoiadas na neurose as pessoas buscam manipular o ambiente a fim de se eximirem de responsabilidade das falhas que venham realizar. Dentro da prática do Ving Tsun, frente a um tutor qualificado essa manipulação fica cada vez mais difícil de ser posta em prática, o que faz com que o praticante esteja constantemente lidando com a frustração do desejo de prosseguir e ter êxito na situação programada.

Mas o sentimento de tentar e não conseguir pode ser positivo?

A frustração é fundamental para o desenvolvimento humano, pois as pessoas são colocadas frente a barreiras, elas tendem a buscar alternativas para transpô-las. O sistema Ving Tsun permite a transposição destas barreiras mas somente através de um processo legitimo, existe um caminho que deve ser seguido, enquanto atalhos, abusos e manipulações são facilmente detidos, quando colocados frente a um tutor qualificado. Isto permite que a pessoa fique mergulhada dentro da frustração em busca de alternativas legítimas, para poder passar pela situação colocada.

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O excesso de força é uma forma de tentar manipular o ambiente em seu favor, um tutor qualificado de Ving Tsun pode facilmente frustrar essa manipulação.

A sensação de estar frustrado, contudo, nunca é boa e quando está aliada a uma ansiedade além da medida pode ser demais para um praticante, travando todo o seu processo de aprendizado. Desta forma é importante que cada praticante passe a se conhecer melhor e consiga ver entender qual é o nível de frustração e ansiedade que possam ser tolerados naquele momento. Por isso pode ser saudável fazer pequenas pausas para conseguir assimilar a carga emocional que é desprendida dentro das sessões.

Existe um ditado no Brasil que diz::“ Mar calmo não faz bom marinheiro.” . Contudo é importante notar que um mar extremamente tempestuoso e agressivo pode não fazer marinheiro algum.  Desta forma é importante estar experienciando alguma dose de frustração, mas não se pode permitir que ela te incapacite.
 

Eu acho que foi pensando nessa lógica de que o mar calmo não faz bom marinheiro que Mestre Julio Camacho disse a frase sobre o idoso abobalhado e o jovem com recursos, acredito que ele se referia a qualidade dos desafios que cada um encarou durante a vida, e como pode lidar com suas frustrações pessoais. E estar dentro de uma dinâmica de vida Kung Fu, saindo dos lugares habituais permite com que haja esse crescimento, que se dá não só através da frustração, mas também do pensamento estratégico desenvolvido dentro do Ving Tsun.

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Master Julio Camacho falando sobre vida Kung Fu.

 

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Discípulo de Mestre Julio Camacho Iuri Alvarenga “Moy Yau Lei” iurial1v@gmail.com

 

 

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In some Martial Arts organizations, specially on Kung fu ones, it is common to find ceremonies marking a practitioner’s level change. In this type of ceremony it is not uncommon to hear a practitioner saying the word “Frustration” when talking about their experience at the previous level. But what is frustration?

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Level Change Cerimony which I was granted acess to the second level of Ving Tsun traditional system.


Master Julio Camacho was once talking about how Kung Fu prepares people for life situations and said something similar to what I will transcribe below: “People often associate wisdom with age, but that’s not necessarily into true. It’s not uncommon to find an old aged fool, while it’s not impossible to find someone young and resourceful. “
Frustration can be understood as a tension generated by the non-satisfaction of needs or desires. This feeling is often  spoken pejorative way, it is said that frustrated people are unsucessfull in lifeand are, as well, stuck in situations of the past.

But you might be asking yourself… How’s that even related to Kung Fu?

Well, within the dynamics of kung fu life, we constantly find ourselves in situations that we would not normally experience, this includes but is not restricted to martial practice.

Generally speaking, in everyday life it is not uncommon for people to have their goals frustrated; when they are overwhelmed by their own neurosis, people seek to manipulate the environment in order to  withdrawn the responsibility for their own failures. Within the Ving Tsun practice, in front of a qualified tutor this manipulation becomes very difficult to be putted into practice, which makes the practitioner constantly dealing with the frustration of the desire to continue and succeed in that situation.

But how the feeling of trying and not making could be positive?

Frustration is fundamental to human development, as people are placed in front of barriers, they tend to look for alternatives to bypass them. The Ving Tsun system allows the bypassing of these barriers but only through a legitimate process, there is a path that must be followed, while shortcuts, abuses and manipulations are easily detained when placed in front of a qualified tutor. This allows the person to be immersed in the frustration in search of legitimate alternatives, to be able to go through the situations.

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Strenght abuse is a way of trying to manipulate the enviroment in ou favor, a Ving Tsun qualified tutor can easily frustrate that manipulation.

The feeling of being frustrated is, however, never good and when combined with an high level of anxiety could be too much for a practitioner, stopping thewhole learning process. In this way it is important that each practitioner begins to improve their self knowlege to be able to see what level of frustration and anxiety can be beared at that moment. So it may be healthy to take short breaks in order to assimilate the emotional load that is unleashed within the sessions.


There is a saying in Brazil that says: “Calm sea does not make a good sailor.” However it is important to note that an extremely stormy and aggressive sea may not make any sailor at all. In this way it is important to be experiencing some amount of frustration, but it can shouldn’t incapacitate you.

I believe that Master Julio Camacho was thinking about the logic of the calm sea does not make good sailor when he said the phrase about the old fool and the resourceful and young, I believe he was referring to the quality of the challenges that each one faced during The life, and how you handle your personal frustrations. The Kung Fu life provides us with many challenges of that sort, leaving the usual places allowed for this growth to occur, not only through frustration but also the strategic thinking developed within the Ving Tsun.

 

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Master Julio Camacho talking about Kung Fu life.

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An disciple of Master Julio Camacho Iuri Alvarenga “Moy Yau Lei” iurial1v@gmail.com

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Confie no Si Fu / Trust Si Fu

Confie no Si Fu / Trust Si Fu

Si Fu e eu no dia do meu Baai Si.

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Quando eu comecei a praticar Ving Tsun, o que mais me impressionou foi a multiplicidade de informações e interpretações de um fato que o sistema permitia. Em uma das minhas primeiras sessões de Ving Tsun Experience, eu estava aprendendo o Yat Ji Jung Choei, o popular soco… Durante a sessão eu fui perguntado pelo meu Si Hing Thiago Pereira para que servia um soco.  Eu vi que talvez aquela fosse uma pergunta capciosa e titubeei um pouco… sabia que iria responder aquela pergunta de forma inadequada, mas mesmo assim resolvi me arriscar e respondi que um soco servia para ferir ou agredir outra pessoa. Meu Si Hing perguntou “Então se é para isso, porque não estamos nos batendo?”. Fiquei sem resposta e após essa intervenção fui aos poucos podendo enxergar, através do processo de mobilização do meu Si Hing, que através do movimento de soco explorávamos uma série de particularidades do Siu Nim Do.

Depois desse episódio comecei a tentar ver o que cada movimento podia dizer. Através desse processo fui percebendo que muitas vezes as dificuldades técnicas são análogas as próprias dificuldades da vida. Funcionando como metonímias, uma vez que substituem a parte pelo todo. Muitas vezes a dificuldade de explorar os movimentos está ligada a uma dificuldade de expressão que incide na pessoa de uma forma global, aparecendo em muitas partes de sua vida.

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O aprendizado no Ving Tsun, algumas vezes pode parecer uma montagem de quebra-cabeças.

Existe um grande filósofo alemão, chamado Arthur Schopenhauer que diz que existe uma diferença entre alguém talentoso e alguém genial. Para Schopenhauer uma pessoa talentosa é aquela que acerta o alvo que ninguém mais consegue, enquanto a pessoa genial acerta o alvo que ninguém vê.

     Recentemente, meu Si Fu pediu que eu começasse a escrever, particularmente sobre Vida-Kung Fu e a relação Mestre-Discípulo. Em um primeiro momento me questionei porque Si Fu estava me pedindo isso. Seria eu a pessoa mais indicada para essa tarefa?

Lembrei então do início da minha prática e de como que dentro da dimensão Kung Fu muitas coisas não são somente o que parecem, passei a pensar em qual tipo de experiência a escrita poderia me proporcionar, essa experiência que não estaria limitada a mecânica da escrita e sim essa tarefa me possibilitaria explorar cada vez mais a dimensão Kung Fu. Desse modo eu poderia ter mais acesso à novas experiências de vida geradas a partir do Kung Fu,  como por exemplo estar mais próximo do Si Fu e como essa atividade pode gerar  grande crescimento pessoal. Eu não sei o que Si Fu viu para me pedir que eu escrevesse esses textos, mas sempre tento me lembrar que os gênios são aqueles que acertam o alvo que ninguém mais vê.
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Discípulo de Mestre Julio Camacho. Iuri Alvarenga “Moy Yau Lei” iurial1v@gmail.com

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Trust Si Fu

Confie no Si Fu / Trust Si Fu

Si Fu and I on my Baai Si’s day

When I started practicing Ving Tsun, i got very impressed by th multiplicity of information and interpretations of a stimuli that the system allowed. In one of my first Ving Tsun Experience sessions, I was being introduced to Yat Ji Jung Choei, most known as the punch … During the session I was asked by my Si Hing Thiago Pereira what a punch was for. I  thought that maybe that was a trick question … I knew I would answer that question inappropriately, but I still decided to take my chances and I answered that a punch  was meant to hurt or assault another person. My Si Hing asked, “So if that’s what a punch is for, why  we’re not hitting each other?” I was speechless and after this intervention I gradually saw, through the process of mobilization of my Si Hing, that through the movement of punch we  were exploring a series of peculiarities of Siu Nim Do.

After that episode I began to try to see what each movement could say to me. Through this process I have come to realize that technical difficulties sometimes are analogous to each one life’s personal difficulties. Functioning as metonymy, since they replace the part for the whole. Often the difficulty of exploring the movements is linked to a difficulty of expression that affects the personas whole, appearing in many parts of his/her life.

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Sometimes learning in Ving Tsun is like solving a puzzle.

There is a great German philosopher named Arthur Schopenhauer who claims to be a difference between a talented person and a genius. For Schopenhauer a talented person is the one who hits a target while no one else can, while the genius hits a target that nobody else sees.

Recently, my Si Fu asked me to start writing, particularly about Kung Fu Life and the Master-Disciple relationship. At first I wondered why Si Fu was asking me this. Would I be the best suited person for this task?

Then I remembered the beginning of my practices and how in the Kung Fu dimension many things are not only what they seem, I started to think of what kind of experience writing could give me, and how this experience would not be limited to the mechanics of mere writing.  Through the  writing  i was going to be able to explore more and more the Kung Fu dimension, in on top of that i was going to have more access to the possibilities offered through Kung Fu life, such as being closer to Si Fu, therefore this activity could generate great personal growth. I do not know what Si Fu saw to ask me to write these texts, but I always try to remember that geniuses are the ones who hit the target that no one else sees.

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An disciple of Master Julio Camacho. Iuri Alvarenga “Moy  Yau Lei” iurial1v@gmail.com

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