Desenvolvendo a Atenção Através da Relação Mestre-Discípulo/ Developing Attention Through Master-Disciple Relationship

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Qual é o diferencial do Kung Fu? Seriam os movimentos precisos? Eficiência técnica? Melhoria da consciência corporal?

Todos estas particularidades são, em minha opinião, diferenciais do Kung Fu, mas no entanto, acredito que o que torna esta arte tão diferente é o que chamamos de vida Kung Fu.  Mas o que seria isso?  Na base da vida Kung Fu estariam os relacionamentos desenvolvidos no círculo Marcial, sobretudo a relação mestre e discípulo.

Mas o que essa relação mestre discípulo tem de tão especial?

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Mestre Julio Camacho acompanha seu Mestre Leo Imamura na visita de seu  Meste Moy Yat. Na imagem de 98, o encontro de 3 gerações.

A princípio é uma relação que é calcada no aprendizado, mas que não fica restrita ao aspecto físico, principalmente porque tal perspectiva seria limitante e limitada. O aprendizado transcende o aspecto marcial do Kung Fu. No meu modo de ver, a luta é a roupagem que o Kung Fu usa para que possamos desenvolver algo muito mais precioso, que é a atenção.

Em quais situações de vida, verdadeiramente usaríamos um soco? Pode ser que algumas situações realmente requeiram o uso do soco… mas em quantas situações de vida nos beneficiaríamos de uma atenção refinada? Arrisco-me dizer que em todas!

Enquanto uma relação baseada em lutas se dá principalmente em um ambiente propício para lutas, uma relação baseada na atenção pode se dar em qualquer lugar, fazendo praticamente qualquer coisa, como pintar paredes ou simplesmente almoçando. Depende apenas da atitude mental voltada para atenção.

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É possível desenvolver seu Kung Fu pintando paredes, inclusive. Na imagem, o antigo núcleo da Avenida Nelson Cardoso.

Quando estamos imersos em uma relação, sempre há trocas e novas experiências surgem a partir destas trocas. Quando nos colocamos dentro de uma relação mestre e discípulo, a convivência vai gerando situações para que o Kung Fu e atenção sejam desenvolvidos.

Essa semana reuni para almoçar com Mestre Julio Camacho e outros discípulos.  Neste almoço, pudemos falar sobre um projeto que estamos desenvolvendo. Um projeto sobre Páginas de Kung Fu na internet. Neste projeto, alguns discípulos, supervisionados por Mestre Julio Camacho, farão postagens regulares sobre temas diversos, reunidos ao redor da temática Kung Fu.

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Dentro de um processo de Vida Kung Fu, muitas vezes nos vemos em situações que normalmente não viveríamos.

Mestre Julio Camacho falava sobre a dificuldade de muitas pessoas em gerar um tema e depois desenvolvê-lo. Segundo ele, a muitas pessoas tem dificuldade em gerar temas, pois ficam dependentes de uma eventual inspiração,  ou do surgimento de uma ideia. Contudo esse problema pode  ser contornado através de uma dinâmica relacional entre mestre e discípulo, pois esta relação tem um potencial gerador experiências diversas em um âmbito Kung Fu, desde que o discípulo permaneça atento para captar o que está sendo transmitido.

No âmbito da clínica psicológica,  como se é de esperar,  a presença e a atenção do psicólogo ao que está sendo transmitido são fundamentais para  o andamento do processo terapêutico, pois todo e qualquer processo terapêutico é iniciado no momento  em que é constituída uma relação e  dentro dessa relação surgirão os temas  pertinentes do processo de vida de cada pessoa.

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A atenção refinada pela convivência com Mestre Julio Camacho  me desenvolve como psicoterapeuta.

A partir do surgimento de temas, a atenção de um terapeuta é muito importante, mas essa se dá em vários níveis. É necessário prestar atenção não só no que é dito, mas também no que não é dito, no que é mostrado através de gestos e movimentos, e também nas coisas que a pessoa não consegue ver ou perceber, mas que estão contidas em sua comunicação. A percepção destes aspectos é o que move a terapia, e é através dessa atenção que novos temas vão sendo explorados.

Considerando que estar próximo ao  mestre em situações de vida Kung Fu, permite a ampliação da percepção e da capacidade de prestar atenção, acredito que posso me tornar um psicoterapeuta melhor, pois o potencial gerado dentro dessa relação refina nossas principais ferramentas de trabalho….

Mas isso é só um psicólogo falando… Acredito que qualquer que fosse a profissão a fala seria a mesma. Até a próxima!

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Discípulo de Mestre Julio Camacho Iuri Alvarenga “Moy Yau Lei” iurial1v@gmail.com

Developing Attention Through Master-Disciple Relationship

What is the big deal about Kung Fu? The precise movemnts, maybe or  the technical efficiency? Improvement of body awareness?

All these particularities are, in my opinion, Kung Fu differentials, but nevertheless, I believe that what makes this art so different is what we call Kung Fu life. But what would that be? At the base of Kung Fu life would be the relationships developed in the martial circle, especially the master and disciple relationship.

But what does this master-disciple relation is so special?

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Master Julio Camacho accompanies his Master Leo Imamura on his Master visit. An encounter of three generations, in 1998.

At first it is a relationship that is based on learning, but it is not restricted to the physical aspect, mainly because such a perspective would be limiting and limited. The learning transcends the martial aspect of Kung Fu. In my view, the fight is the dress that Kung Fu uses so that we can develop something much more precious, which is attention.

Which life situations would we truly need to use a punch? It may be that some situations ,actually, require it’s use … but in how many life situations would we benefit from refined attention? I venture to say that in all!

While a relationship based on fighting occurs mainly in  fighting environments, a relationship based on attention can occur anywhere, doing just about anything.

We may be developing our Kung Fu painting walls or simply having lunch.

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It’s possible to develop Kung Fu even painting walls. On image Vladmir Anchieta and Fernando Xavier.

When we are immersed in a relationship, there are always life exchanges and new experiences emerge from these exchanges. When we put ourselves into a master and disciple relationship, when together  some situations to the development of attention are created through Kung Fu experiences.

This week I met Master Julio Camacho and other disciples for lunch. While having a meal we were able to talk about a project that is being developed. A project about Kung Fu Pages on the internet. In this project, some disciples, supervised by Mestre Julio Camacho, will make regular posts on different themes, gathered around the Kung Fu theme.

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In a Kung Fu life process, we often see ourselves in some situations that we wouldn’t normally be.

Master Julio Camacho talked about the difficulty of many people in generating a theme and then developing it. According to him, many people find it difficult to generate themes because they are dependent on an eventual inspiration, or the emergence of an idea. However, we can go around this problem by having a relational dynamic between master and disciple, for this relationship has a potential to generate diverse experiences in a Kung Fu scope, as long as the disciple pays attention for what is being transmitted.

In the psychological clinic, as many might expect, the presence and attention of the psychologist to what is being transmitted are fundamental to the progress of the therapeutic process, since any therapeutic process is initiated at the moment when a relationship is formed and Within this relationship will arise the pertinent themes of the process of life of each person.

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The refined attencion developed by being close to my master helps me become a better psychotherapist

From the emergence of themes, the attention of a therapist is very important, but this takes place on several levels. It is necessary to pay attention not only to what is said, but also to what is not said, what is shown through gestures and movements, and also in things that the person can not see or perceive, but which are contained in their communication. The perception of these aspects is what moves the therapy, and it is through this attention that new themes are being explored.

Considering that being close to the master in Kung Fu life situations, allows the expansion of perception and ability to pay attention, I believe that I can become a better psychotherapist, because the potential generated within this relationship refines our main work tools … .

But this is just a psychologist talking … I believe that whatever profession the speech would be the same. Until next time!

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An Disciple of Master Julio Camacho. Iuri Alvarenga “Moy Yau Lei” iurial1v@gmail.com

Figura, Fundo e Kung Fu/ Figure, Ground and Kung Fu

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Porque dentro do Kung Fu um soco pode significar tanta coisa? É o que tentarei explicar a seguir!

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Há algumas semanas, eu estava tomando café da manhã com Mestre Julio Camacho e outros praticantes de Kung Fu, quando surgiu o assunto de que havia muitas distorções acerca de termos de alguns termos de psicologia. Muitos não sabem, mas Mestre Julio, assim como eu, também é psicólogo. Ele falava ,em tom de brincadeira, de certo praticante que estava fazendo uma série de confusões acerca do conceito de figura e fundo. Fiquei pensando algum tempo em como explicar essa ideia que para mim é tão natural, para que  outros praticantes pudessem entender sem criar novos problemas para si.

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Tanto em situações cotidianas, como um café da manhã, quanto em situações de prática, Mestre Julio Camacho consegue mobilizar a enxergar outros paradigmas. O efeito que teve em mim foi: Como um praticante de Kung Fu/Psicólogo pode utilizar Kung Fu para falar de Psicologia? E Como utiliza psicologia para falar de Kung Fu?

Com esse pensamento em mente, recentemente eu acompanhei o processo de aprendizado de um rapaz que tinha acabado de se inscrever no Ving Tsun Experience, programa que funciona como porta de entrada para o Kung Fu.  Durante a sessão desse rapaz, que se chama Felipe, pudemos observar alguns aspectos importantes para o Kung Fu, mas gostaria de ressaltar o trabalho de soco. Depois de algumas tentativas, me inspirei em algo que o Mestre Thiago Pereira me disse e perguntei: “Para que serve esse soco que a gente tá trabalhando?!”. O rapaz disse que para ele, o soco servia tanto para agredir, quanto para medir distância. Concordei com ressalvas pois perguntei porque então não estávamos nos acertando e porque a distância entre nós não mudava. O rapaz, assim como eu fiz, outrora não soube o que responder. Apontei uma série de coisas que trabalhamos a partir da configuração do soco, como equilíbrio e geração de energia a partir de uma base estática.

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Muitas vezes no Kung Fu, um toque sutil pode gerar uma série de informações. Na imagem, uma prática de Ving Tsun Experience.

Ao resgatar esse tema que já nos é familiar, gostaria de trazer também um conceito da Psicologia da Gestalt, uma linha teórica bastante conhecida dentro da psicologia.

No início do século XX, na Alemanha, alguns psicólogos se debruçaram no estudo sobre a forma com que os seres humanos organizam suas percepções e sensações. A partir desses estímulos, estes estudiosos perceberam que as pessoas se organizam em Gestalten, termo em alemão cujo significado se aproxima de “forma” ou “totalidade”.

Através de muitos estudos e observações, grandes expoentes da Psicologia da Gestalt como Wertheimer, Koffka e Köhler começaram a perceber que a “totalidade é maior que a soma das partes. “

Mas o que isso quer dizer?

De forma resumida, quer dizer que um elemento isolado necessita de um contexto para que seja atribuído a ele um significado. Por exemplo, uma linha reta desenhada em um papel, isoladamente ela não significa muita coisa, mas dentro de uma composição com outras retas pode formar, por exemplo a representação da planta baixa de uma casa. Logo pode-se afirmar que as partes observadas separadamente não possuem as mesmas características de um todo, e portanto a totalidade é maior que a soma das partes.

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Por muitos anos, o vaso de Rubin foi utilizado para ilustrar o conceito de figura e fundo.

Este postulado se apoia no conceito de figura e fundo. Quando trazemos esse conceito para as relações humanas, pode-se afirmar que o fundo diz respeito ao organismos, ao meio ambiente e as experiências prévias de um indivíduo, enquanto a figura é a parte que se destaca neste fundo. Quando inserimos novos elementos em um fundo, a configuração e a percepção do todo mudam por completo, o que pode mudar a percepção total ou parcial de uma figura, pois sua emergência pode vir repleta de novos significados. Quando essa reconfiguração é consciente podemos chamá-la de insight, awareness, ou simplesmente de tomada de consciência.

Quando Felipe chegou para praticar naquele dia ele tinha uma concepção sobre o soco, que condizia com suas experiências prévias e que fazia parte do seu fundo psicológico. Para ele, o soco quando o soco emergia enquanto figura, era um elemento que servia tanto para externar agressividade quanto para medir distância, contudo durante a sessão foram aparecendo novos elementos que passaram a compor um novo fundo para Felipe. Em um momento eventual, quando houver a necessidade de Felipe utilizar o soco dentro de uma sessão de Ving Tsun Experience novamente, ele provavelmente terá um entendimento mais denso sobre esse elemento e certamente em outras oportunidades ele estará menos ávido para fechar um significado sobre o que está praticando e estará mais atento as possibilidades geradas pelo Kung Fu.

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Discípulo de Mestre Julio Camacho. Iuri Alvarenga “Moy Yau Lei” iurial1v@gmail.com

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Why does the Punch may have many meanings on Kung Fu? That’s what i’ll try to explain next!

A few weeks ago, I was having breakfast with Master Julio Camacho and other Kung Fu practitioners when a subject came to the table that there were many distortions about some terms of psychology. Many do not know, but Master Julio, is also a psychologist, just like me. He was talking  about of a certain practitioner who was making a series of confusions about the concept of figure and background. I started to think how to explain this idea which is so natural to me so that other practitioners could understand  it without creating new problems for themselves.

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Either in daily situations, such as breakfast, as in practices, Master Julio can mobilize people to see other paradigms. The effect on me was How can a Kung Fu Practitioner/Psychologist could use Kung Fu to talk about psychology? And how do a Psychologist could use pyschology to talk about Kung Fu?

With that thought in mind I started last week. I was helping through the learning process of a young man who had just signed up for the Ving Tsun Experience, a gateway program for Kung Fu. During the session of this lad, who is called Felipe, we could observe some important aspects for Kung Fu, but I would like to emphasize the punch. After a few attempts, I was inspired by something that Master Thiago Pereira told me and asked: “What is this punch? What are we working through it ?!”. Felipe said that the punch served both to attack and to measure distance. I agreed with reservations because I asked why we were not hitting each other and why the distance between us did not change. The boy, as I did in the past, did not know what to answer. I pointed out a number of things that we were working from the punch configuration, such as balance and power generation from a static basis.

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Many times on Kung Fu, the slightest touch might bring lots of information. On this pictute a Ving Tsun Experience Pratice.

Since I’m bringing this theme back, I would also like to bring a concept of Gestalt Psychology, a theoretical line well known within psychology.

In the early twentieth century, in Germany, some psychologists have studied the way humans organize their perceptions and sensations. From these stimuli, these scholars have realized that people are organized in Gestalten, a German term whose meaning approaches to “form” or “totality”.

Through many studies and observations, great exponents of Gestalt Psychology such as Wertheimer, Koffka, and Köhler have begun to realize that “totality is greater than the sum of the parts.”

But what does that mean?

Briefly, it means that an isolated element needs a context in order to be assigned a meaning. For example, a straight line drawn on a paper, alone it does not mean much, but within a composition with other straight lines can form, for example the representation of the floor plan of a house. It can thus be said that the parts observed separately do not have the same characteristics of the whole, and therefore the totality is greater than the sum of the parts.

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For many years, The Rubin Vase was used to illustrate the concept of figure and ground.

This postulate is based on the concept of figure and ground. When we bring this concept into human relations, it can be said that the ground concerns the organisms, the environment and the previous experiences of an individual, while the figure is the part that stands out in this ground. When we insert new elements into a ground, the configuration and perception of the whole changes completely, which can change the total or partial perception of a figure, because its emergence may come full of new meanings. When this reconfiguration is conscious we can call it insight, awareness, or simply awareness.

 When Felipe arrived to practice that day he had a conception of the punch, which was consistent with his previous experiences and which was part of his psychological background. For him, the punch when the punch emerged as a figure, was an element that served both to express aggression and to measure distance, yet during the session new elements appeared that formed a new fund for Felipe. At an eventual moment, when there is a need for Felipe to use the punch within a Ving Tsun Experience session again, he will probably have a more dense understanding about that element and certainly on other occasions he will be less eager to close a meaning about what Is practicing and will be more aware of the possibilities generated by Kung Fu.

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Disciple of Master Julio Camacho.   Iuri Alvarenga “Moy Yau Lei” iurial1v@gmail.com

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