Kung Fu, Fear and Anxiety.

Kung Fu, Medo e Ansiedade.

ENGLISH VERSION
Uma das coisas que mais me impressionam no Kung Fu é o aprendizado que ocorre de maneira invisível. No dia que fui convidado a ingressar na família Kung Fu de Mestre Julio Camacho, lembro que fui preparado apenas para jantar e ser formalmente convidado para esse ingresso. Havíamos marcado de encontrar os participantes do jantar no núcleo para podermos ir todos juntos ao restaurante. Ao chegar no núcleo, Mestre Julio Camacho ainda coordenava uma prática de combate e ao me deparar com esta situação inesperada, fiquei sem saber o que fazer, fiquei nervoso e congelei, não queria participar da prática, ao mesmo tempo fiquei bastante deslocado dos demais praticantes.

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O evento realizado no núcleo Freguesia contou com praticantes de todas as escolas da Moy Yat Ving Tsun do Rio de Janeiro.

No último final de semana, participei de um evento no núcleo Freguesia que contou com a participação da liderança do Grande Clã Moy Yat Sang, Mestre Leo Imamura. Acabei decidindo ir de última hora e confesso que fui com uma mentalidade de apenas assistir as palestras como se estivesse assistindo uma aula qualquer. Ao chegar no núcleo Freguesia, já no elevador descobri que eu seria o único aluno a representar Mestre Julio Camacho. Ao ouvir essa informação fiquei sem a menor ideia do que fazer. Durante este impasse, acabei esperando um pouco e com a chegada de alguns membros de um outro núcleo pude perceber uma tendência.
Neste momento, consegui virar uma chave. Deixei de me colocar como vítima dos meus próprios atos e tomei a consciência de que precisava fazer alguma coisa diferente. Eu não estava mais naquele núcleo por mim mesmo, mas representando todo o clã e por isso não poderia assumir uma postura de mero espectador mas de alguma forma estar contribuindo com a fluidez daquele evento.
Lembrei muito da última viagem que fiz com Mestre Julio Camacho em que ele me disse

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A última viagem que fiz acompanhando Mestre Julio Camacho.

que um praticante de Kung Fu não podia ser mais um, mas em cada ambiente que ele estivesse, poderia estar somando e fazendo a diferença. Mas a partir daí veio mais um questionamento. Como eu poderia fazer isso sem ser desrespeitoso com os organizadores do evento. Resolvi então que o que eu precisava fazer seria dar o melhor de mim em todas as práticas, além de fazer perguntas de forma que fosse gerada uma ambiência para a exploração delas.
Durante o primeiro dia, Mestre Leo Imamura falou de uma particularidade humana que me chamou muito a minha atenção. Falou sobre o medo e como esse sentimento afeta as pessoas dentro e fora de um contexto de artes marciais. Posteriormente, já em casa, comecei a conectar o que foi dito com alguma coisa que eu sabia acerca deste sentimento.
Dentro da psicologia, o primeiro nome que me vem à cabeça quando penso nesse assunto é Kurt Goldstein. O medo é um sentimento faz parte da constituição humana e tem como função, a preservação do indivíduo. De acordo meus estudos acerca deste teórico, o medo tem sempre um objeto de referência e lidar com ele é relativamente fácil, pois para não sentir medo, basta não estar em contato com um objeto. Por exemplo: Se tenho medo de aranhas, basta eu ficar longe de aranhas que não sentirei medo.

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Mestre Leo Imamura, cria,a meu ver, um cenário apropriado para demonstração de uma abordagem apropriada de chutes.

O medo contudo é um sentimento que sensorialmente se confunde com a ansiedade. A ansiedade é um derivado do medo, contudo, neste sentimento, o objeto do medo se perde e fica bastante obscuro, pois passa por muitos intermediários. Além disso existe esse sentimento envolve a característica de antecipar a reação antes do tempo adequado. Por exemplo, digamos que tenho uma prova a ser realizada amanhã. Como acho que não me preparei adequadamente fico ansioso desde já. A fantasia é que se fizer a prova, sairei mal, se sair mal, reprovarei o semestre, se reprovar o semestre, levarei bronca dos meus pais, se levar bronca dos meus pais, os decepcionarei e se os decepcionar, perderei seu amor. Desta forma a ansiedade está relacionado a um objeto equivocado e a partir de um olhar cuidadoso podemos perceber que em sua raiz está uma outra questão bem mais profunda. De acordo com Goldstein, o trabalho para redução da ansiedade seria a desconstrução para que cheguemos ao medo e assim podermos aborda-lo de maneira apropriada.
Dentro do Kung fu, frequentemente me deparo com situações que geram ansiedade, como foi o caso de representar o Mestre Julio Camacho. Contudo, dentro desse mesmo Kung Fu, aprendo a ver as situações dentro de seu real tamanho para que possa dar as respostas apropriadas.
Até a próxima!

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Um discípulo de Mestre Julio Camacho. Iuri Alvarenga “Moy Yau Lei” iurial1v@gmail.com

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Kung Fu, Fear and Anxiety

One of the things that impress me most about Kung Fu is learning that occurs in an invisible way. On the day that I was invited to join the Kung Fu family of Mestre Julio Camacho, I remember that I was prepared only for dinner and to be formally invited to this ticket. We had arranged to meet the dinner participants in the nucleus so we could all go to the restaurant together. Upon arriving at Barra da Tijuca School, Master Julio Camacho was coordinating a combat practice and when I came across this unexpected situation, I did not know what to do, I got nervous and I froze, I did not want to participate in the practice, at the same time I was quite dislocated from other practitioners .

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The Event in Freguesia School Branch, where members from all Moy Yat Ving Tsun schools in Rio de Janeiro attended.

Last weekend, I attended an event in Freguesia School Branch that was attended by the leadership of the Grand Clan Moy Yat Sang, Master Leo Imamura. I ended up deciding to go last minute and I confess I went with a mentality of just attending the lectures as if I was attending any class. Upon reaching the Freguesia School Branch, in the elevator I discovered that I would be the only student to represent Mestre Julio Camacho. When I heard this information, I had no idea what to do. During this impasse, I ended up waiting a little and with the arrival of some members of another school and then I could perceive a tendency.
At that moment, I was able to turn a key. I stopped being a victim of my own actions and became aware that I needed to do something different. I was no longer in that school by myself, but representing the whole clan and therefore could not assume a posture of mere spectator but somehow be contributing to the fluidity of that event.
I remembered a lot of the last trip I did with Mestre Julio Camacho in which he told me

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In my last trip with Master Julio Camacho.

that a Kung Fu practitioner could not be one more, but in every environment he was, he could be adding up and making a difference. But from that came another question. How could I do this without being disrespectful to the organizers of the event. I then decided that what I needed to do would be to do my best in all practices, as well as to ask questions in a way that would create an environment for the exploitation of the subjects.
During the first day, Master Leo Imamura spoke of a human particularity that caught my attention very much. He talked about fear and how that feeling affects people in and out of a martial arts context. Later, already at home, I started to connect what was said with something I knew about this feeling.
Within psychology, the first name that comes to mind when I think about it is Kurt Goldstein. Fear is a feeling is part of the human constitution and has the function of preserving the individual. According to my studies about this theorist, fear always has an object of reference and dealing with it is relatively easy, because in order not to feel fear, it is enough not to be in contact with an object. For example: If I’m afraid of spiders, I just avoid spiders that experience fear.

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Master Leo Imamura, creates, in my understanding, a scenario where we could explore kicks appropriately.

Fear, however, is a feeling that is sensationally confused with anxiety. Anxiety is a derivative of fear, yet in this feeling, the object of fear is lost and becomes quite obscure, for it goes through many intermediates. In addition there is this feeling involves the characteristic of anticipating the reaction before the appropriate time. For example, let’s say I have a test to be held tomorrow. As I think I did not prepare properly, I’m anxious right now. The fantasy is that if I do the test, I will go wrong, if I go wrong, I will fail the semester, if I fail the semester, I will be scolded by my parents, if I’ scolded by my parents, I will disappoint them and if I disappoint them, I will lose their love. In this way the anxiety is related to a mistaken object and from a careful look we can perceive that in its root is another question much deeper. According to Goldstein, the work to reduce anxiety would be the deconstruction so that we come to fear so that we can approach it appropriately.
Within Kung Fu, I often come across situations that generate anxiety, as was the case of representing Master Julio Camacho. However, within that same Kung Fu, I learn to see situations within their actual size so that I can give appropriate responses.
Until Next time!

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An disciple of Master Julio Camacho. Iuri Alvarenga “Moy Yau Lei” iurial1v@gmail.com

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Kung Fu e Comunicação

ENGLISH VERSION

No último dia 16, acompanhei Mestre Julio Camacho ao Campus da UFRJ na Praia Vermelha, para que ele pudesse ministrar, como Mestre de Kung Fu, uma palestra na disciplina Técnicas de Comunicação para o Curso de Nutrição daquela instituição.

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Professor Eduardo, penúltimo da esquerda para a direita, recebe a família Kung Fu na UFRJ.

Durante o traslado, Mestre Julio Camacho ficou perguntando a mim e principalmente ao Mestre Thiago Pereira o que entendíamos por comunicação. O assunto foi bem enriquecedor, pois Mestre Thiago Pereira pôde falar um pouco sobre a lógica de comunicação da cultura tradicional chinesa e como a comunicação funciona dentro de uma dinâmica de Kung Fu, enquanto Mestre Julio Camacho nos falou sobre as particularidades da comunicação, como escuta, fala, canal de comunicação, atenção ao interlocutor e adequação de linguagem. Falou ainda sobre a importância do comunicador avaliar as circunstâncias nas quais está inserido e sobre conexão com as necessidades que vão surgindo a cada momento.

Quando chegamos a sala de aula, Mestre Julio Camacho pediu para que formássemos um círculo para que pudéssemos ver e sermos vistos por todos. Quando a palestra começou, o Mestre pediu para que cada um se apresentasse e falasse o que pensava sobre a importância da comunicação para si. O que ouvimos foi que em muitas falas, as pessoas geralmente tem facilidade de escutar o outro e grande dificuldade de se expressar para um público desconhecido e a grande razão para isso era a vergonha. Mestre Julio Camacho demonstrou grande empatia e conduziu o encontro de forma leve e dessa forma as pessoas presentes se sentiram convidadas a expor seus pensamentos e sentimentos acerca da comunicação. O palestrante fez, em muitos momentos, pontuações e recortes para falar da comunicação, e até mesmo de casos pessoais seus

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Mestre Julio Camacho ministra palestra na UFRJ.

para ilustrar o tema, sempre buscando, de alguma forma ajudar a cada uma daquelas pessoas.  Desta forma a palestra tomou uma fluidez muito grande e ao fim da fala da última pessoa, surgiu uma dúvida para os presentes: Como o Kung Fu se aplica a comunicação? Mestre Julio Camacho discorreu brevemente sobre o tema para que enfim terminasse a palestra dentro do tempo estipulado.

Posteriormente o mestre, nos explicou que adotou essa postura com base na situação que se apresentou, utilizou-se de sua percepção desenvolvida no Kung Fu para manter a plateia interessada e engajada, atinando para as circunstâncias que eram apresentadas, não se repetindo nos temas e buscando deixar as pessoas a vontade através de sua leitura de cenário.

Durante a apresentação, meus ouvidos de psicólogo não se contiveram e duas coisas me chamaram a atenção. O primeiro é que as pessoas geralmente não tem dificuldade em ouvir são empáticas e tem muita disponibilidade de estar acolhendo o outro.  A segunda é que as pessoas tem muita dificuldade em se expressar para um público desconhecido,

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A colaborativa plateia de Nutrição.

na maior parte das vezes por vergonha. De acordo com o renomado Gestalt-terapeuta Gary Yonteff(1998), o sentimento de vergonha está relacionado ao sentimento de inadequação, de não ser bom o suficiente. O questionamento que me passa a cabeça é: Qual será que é a imagem que essa geração tem de si mesma e o que cada um espera de si próprio? Qual a imagem que acreditam estar passando? Quais suas fantasias acerca de si mesmo?

Apesar de imaginar as razões para que isso aconteça, acredito que essas indagações permaneçam sem resposta, mesmo porque cada caso é muito único e particular. Mas pretendo me manter cada vez mais atento para o que possa vir em situações futuras para que seja possível ajudar pessoas que sofrem de vergonha, assim como Mestre Julio Camacho fez.
Até a próxima!

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Discípulo de Mestre Julio Camacho. Iuri Alvarenga “Moy Yau Lei” iurial1v@gmail.com

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Kung Fu and Communication.

On the last day 16, I accompanied Master Julio Camacho to the Campus of UFRJ University in Praia Vermelha, so that he could lecture, as a Kung Fu Master, in the discipline of Communication Techniques for the Nutrition course of that institution.

We met seven a.m. for breakfast in Barra da Tijuca so that we could hold an alignment meeting and discuss possible topics related to what might arise in the lecture. We talked about preparation, the need for the students of Master Julio Camacho to be discreet and not disclose the rest of the audience during his speech, in order not to draw attention unnecessarily.

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Professor Eduardo, the second from the right to left, welcomed the kung fu family in UFRJ University

While our way to the university, Master Julio Camacho asked me and, especially ,Master Thiago Pereira what we understood by communication. The subject was very interesting, because Mestre Thiago Pereira was able to talk a little about the logic of communication of Chinese traditional culture and how communication works within a  Kung Fu dynamic, while Master Julio Camacho told us about the particularities of communication, such as listening , Speech, communication channel, attention to the interlocutor and adequacy of language. He also spoke about the importance of the communicator to evaluate the circumstances in which it is inserted and about the connection with the needs that are emerging at each moment.

When we arrived at the classroom, Master Julio Camacho asked us to form a circle with chair so that we could see and be seen by all. When the lecture began, the Master asked everyone to introduce themselves and tell what they thought about the importance of communication for themselves. What we have heard is that in many speeches, people often find it easy to listen to each other and have great difficulty expressing themselves to an unknown audience, and the great reason for this was shame. Master Julio Camacho showed great empathy and led the meeting lightly and in this way the people present were invited to expose their thoughts and feelings about communication. The speaker

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Master Julio Camacho giving a lecture in UFRJ University.

made in many moments, punctuations and clippings to talk about communication, and even his personal cases to illustrate the theme, always seeking to somehow help each of those people. In this way the lecture took a very great fluidity and at the end of the last person’s speech, a doubt arose for the present: How does Kung Fu apply communication? Master Julio Camacho spoke briefly on the subject so that at last he would finish the lecture within the stipulated time.

Subsequently, the teacher explained that he adopted this position based on the situation presented, he used his perception developed in Kung Fu to keep the audience interested and engaged, taking into account the circumstances that were presented, not repeating itself in the themes and Seeking to leave people at ease through their scenario reading.

During the presentation, my psychologist’s ears caught two matters to my attention. The first is that people usually don’t have difficulty in listening, are empathic and have a lot of willingness to be welcoming each other. The second is that people have a hard time expressing themselves to an unknown audience, most often because of shame. According

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The Colaborative Nutrition Crowd.

to renowned Gestalt therapist Gary Yonteff (1998), the feeling of shame is related to inadequacy, the feeling  of not being good enough. The question that comes to mind is: What is the image that this generation has of itself and what each one expects of itself? What image do you think is happening? What are your fantasies about yourself?

Although I imagine the reasons for this to happen, I believe that these inquiries remain unanswered, even though each case is very unique and particular. But I intend to keep myself more and more aware of what may come in future situations so that it is possible to help people who suffer from shame, just as Master Julio Camacho did.

Until Next time!

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A Disciple of Master Julio Camacho. Iuri Alvarenga “Moy Yau Lei” iurial1v@gmail.com

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