O Kung Fu e a Escuta / Kung Fu and Hearing

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Como o Kung Fu pode aprimorar nossa capacidade de escuta?

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Em muitas escolas de psicologia, muito se fala sobre a neutralidade de um terapeuta. Essa fala gera inúmeras discussões. Enquanto alguns psicólogos abraçam a tentativa de ser o mais neutro possível frente a um paciente, outros terapeutas dizem ser impossível alcançar essa pretensa neutralidade, pois ela acaba no segundo que começa a relação. Pois qualquer elemento da existência provoca um desequilíbrio nesta neutralidade.

A meu ver, ambas as perspectivas, apesar de antagônicas, fazem sentido e estão corretas. Porém existe um nível em que ambas possam coexistir, uma vez que seguidas à risca pode ser que se tornem incorretas. É verdade que uma vez dentro de uma relação a neutralidade se extingue, porém existem momentos que a busca pela neutralidade é desejada. Um desses momentos é justamente o momento de escuta. Quando escutamos o paciente, é de bom tom que permaneçamos neutros, para que nossas vivencias, interpretações e julgamentos não atrapalhem o curso narrativo da pessoa, e por consequência o processo terapêutico da mesma. Mas assim que nos colocamos, seja para fazer um apontamento, trazer um substrato teórico, ou mesmo quando empatizamos, saímos dessa tênue neutralidade.

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Não é incomum tratarmos assuntos de vida Kung Fu enquanto fazemos refeições.

Na última quinta, me desloquei até a Barra da Tijuca, como faço quinzenalmente, para me reunir com Mestre Julio Camacho e outros discípulos. Durante esse encontro, dois praticantes estavam em discordância quanto a um assunto institucional e pediram a orientação do Mestre para poder ter a situação esclarecida. Neste momento ocorreu uma situação que chamou muito a minha atenção.  Ele falou algo parecido com o seguinte “Quero que vocês digam o que aconteceu, evitando emitir suas opiniões pessoais.” Após cada um dizer o que ocorreu naquele ambiente, sem chegar na motivação para a discordância Mestre Julio Camacho teceu então alguns comentários, sobre o conceito do tema que gerou a discussão e esclareceu, para ambos, alguns aspectos conceituais importantes. Depois esse fato, ele perguntou acerca do posicionamento de cada um diante do tema e cada um deu sua versão. Mestre Julio Camacho então trouxe elementos que pudessem auxilia-los naquela questão especifica.

Ele explicou mais tarde, que o fez, porque queria o máximo de informação sem seguir uma tendência lançada por cada discípulo. Decidiu abordar primeiro o tema de uma forma geral, para depois falar sobre ele de uma forma particular.

Mestre Julio Camacho lembrou que no Ving Tsun, o tipo de Kung Fu que praticamos, a Guarda acontece em uma posição de Braços chamada Jong Sau.  Nessa posição uma mão fica sempre em uma linha no meio do tórax, pois partindo de um ponto neutro pode-se abordar mais possibilidades com eficiência.

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Um exemplo de Jong Sau em uma demosntração de Maai San Jong em 2007.

Essa situação me chamou a atenção porque se parece com meu entendimento de escuta terapêutica.  Muitas vezes, é importante que o terapeuta tenha uma escuta clara, e sem interferência sobre o paciente. A importância de estar presente nas situações relatadas pela paciente de uma maneira mais pura, evitando ser influenciado por uma fala neurótica de cada paciente.

Como já sabemos, Mestre Julio Camacho, é psicólogo e pode ser que ele tenha aprimorado a sua escuta exercendo a posição de terapeuta, mas talvez seja insipiente atribuir essa qualidade na escuta somente a isso, afinal existe também uma escuta muito particular é aprimorada através do Kung Fu. O Man Sau (問手), que em uma tradução rasteira do cantonês significa, “Mão que Pergunta”.

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É possível perceber a intenção de uma pessoa através de um simples toque.

Quando há uma conexão e ocorre um toque entre os braços de duas pessoas, acontece, em um nível tátil, um diálogo. Neste diálogo as mãos recebem e dão algumas informações sobre a pessoa que está à frente e que vão desde para aonde os braços de quem está a frente está tendendo a ir, até o nível de pressão que essa pessoa está exercendo sobre o chão. Quando existe a preocupação com o Man Sau, a pessoa que entrega menos informação consegue captar melhor as informações que o outro está dando e a partir destas informações, ela pode propor alguma dinâmica. Funciona como uma espécie de escuta!

Nem sempre é fácil perceber uma pessoa nesta dimensão tátil, uma vez que constantemente estamos voltados para nós mesmos e no que devemos fazer para ter êxito. Com isso, muitas vezes deixamos de ouvir o outro e quais oportunidades ele está oferecendo. Contudo, desenvolver essa sensibilidade não é impossível, afinal de contas existe um sistema estruturado para isso!

Quando desenvolvemos nossa sensibilidade e atenção com o tato, de uma maneira geral, ela não fica restrita ao toque mas se amplia, desdobra e começa a permear outros campos da vida da pessoa.

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Quando praticamos Chi Sau, aprendemos a ouvir o que o outro tem a dizer de uma forma bastante dinâmica.

Quando Mestre Julio Camacho pediu para que seus discípulos contarem a situação do desentendimento sem que eles dessem sua opinião pessoal, pode se dizer que em um nível avançado de man sau, ele pode entrar nas questões de uma maneira bastante neutra e avaliar o cenário proposto por seus discípulos, verificando que estava ocorrendo um desencontro conceitual. Uma vez que essa distorção foi esclarecida, nosso Mestre pode passar para temática seguinte e no porque cada um acreditava naquilo, e então se posicionar conforme.

Como observador externo, acredito que presenciei o Man Sau, sendo realizado em um nível que extrapolou o toque com as mãos, o toque se deu através das palavras, mas no meu entendimento a dinâmica foi parecida, pois primeiro houve a exploração de ambiente através da neutralidade da escuta e depois a proposição da fala.

A relação Mestre-Discípulo tem muito a contribuir para o desenvolvimento humano, ela está dentro de um processo que chamamos de vida Kung Fu. Esse processo potencializa situações vividas cotidianamente, nos permitindo dar um olhar mais atento a elas e conseguir, com alguma sorte e empenho, ressignifica-las e às vezes tudo o que precisamos para ressignificar é parar e ouvir o que o outro tem a dizer. Seja como terapeuta ou praticante de Kung Fu.

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Discípulo de Mestre Julio Camacho. Iuri Alvarenga “Moy Yau Lei” iurial1v@gmail.com

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Kung Fu and Hearing.

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How can Kung Fu improve the abilitie of hearing?

In many schools of psychology, much is said about the neutrality of a therapist. Many discussions are generated  innumerable discussions through this speech. While some psychologists embrace the attempt to be as neutral as possible in front of a patient, other therapists say it is impossible to achieve this alleged neutrality, because it ends in the second that the relationship begins. For any element of existence causes an imbalance in this neutrality.

In my view, both perspectives, although antagonistic, make sense and are correct. But there is a level where both can coexist, since they can be followed incorrectly. It is true that once within a relationship neutrality is extinguished, but there are moments that the search for neutrality is desired. One of these moments is precisely the moment of listening. When we listen to the patient, it is good that we remain neutral, so that our experiences, interpretations and judgments do not disturb the narrative course of the person, and consequently the therapeutic process of the person. But as soon as we act on the setting, whether to make an appointment, to bring in a theoretical substrate, or even when we empathize, we come out of this tenuous neutrality.

Last Thursday I went to Barra da Tijuca, as I do every fourteen days, to meet Master Julio

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It’s not rare to discuss matters of kung fu life while having a meal.

Camacho and other disciples. During this meeting, two practitioners were in disagreement on an institutional issue and asked for the guidance of the Master in order to have the situation clarified. At this moment my attention was brought to an episode that happened there. He said something similar to the following: “I want you to tell what happened, avoiding giving your personal opinions.” After each one said what happened in that environment, without reaching the motivation for disagreement Master Julio Camacho then made some comments about the Concept of the theme that generated the discussion and clarified, for both, some important conceptual aspects. After that fact, he asked about the position of each one in front of the theme and each gave his version. Master Julio Camacho then brought elements that could help them in that specific question.

He later explained that he did, because he wanted the most information without following a trend thrown by each disciple. He decided to approach the subject first in a general way, and then talk about it in a particular way.

Master Julio Camacho recalled that in Ving Tsun, the type of Kung Fu we practice, the Guard happens in a position of Arms called Jong Sau. In this position a hand is always in a line in the middle of the thorax, because starting from a neutral point you can approach more possibilities with efficiency.

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An Jong Sau example in a Maai San Jong demonstration in 2007.

In this situation caught my attention because it looks like my understanding of therapeutic hearing. It is often important for the therapist to have clear listening, and no interference on the patient. The importance of being present in the situations reported by the patient in a more pure way, avoiding to be influenced by a neurotic speech of each patient.

As we already know, Master Julio Camacho is a psychologist and it may be that he has improved his listening by exercising the position of therapist, but perhaps it is insipient to attribute this quality in listening only to this, after all there is also a very particular listening is improved through Kung Fu. The Man Sau (問手), which can be translated from Cantonese as “Asking Hand”.

Kung Fu has a particularity that I find very interesting, that in the school in which practice we call connection. The connection occurs when two people meet and establish a relationship, however, the perception of this connection occurs on several levels. Among them the touch.

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It’s possible to notice some people’s intention by the slightest touch.

When there is a connection and a touch occurs between the arms of two people, a dialogue takes place on a tactile level. In this dialogue the hands receive and give some information about the person who is ahead and who go from where the arms of the one in front is tending to go, up to the level of pressure that that person is exerting on the ground. When there is concern about Man Sau, the person who provides the least information can better capture the information that the other is giving and from this information, it can offer some dynamics. It works as a kind of listening!

It is not always easy to perceive a person in this tactile dimension, since we are constantly focused on ourselves and what we must do to succeed. With this, we often fail to listen to the other and what opportunities he is offering. However, developing this sensitivity is not impossible, after all there is a structured system for this!

When we develop our sensitivity and attention with touch, in a general way, it is not restricted to the touch but enlarges, unfolds and begins to permeate other fields of the person’s life.

When Master Julio Camacho asked his disciples to tell the situation of the disagreement

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When praticing Chi Sau, we can learn to hear other person in a very dynamic way!

without giving their personal opinion, it can be said that at an he has displayed an advanced level of man sau, he can enter the issues in a rather neutral way and evaluate the scenario proposed by His disciples, verifying that a conceptual misunderstanding was taking place. Once this distortion has been clarified, our Master can move on to the next subject and not because each one believed in that, and then to stand accordingly.

As an external observer, I believe that I witnessed Man Sau, being carried out on a level that extrapolated the touch with the hands, the touch came through the words, but in my understanding the dynamics was similar, for first there was the exploration of environment through Neutrality of listening and then the proposition of speech.

The Master-Disciple relationship has much to contribute to human development, it is within a process we call Kung Fu life. This process potentializes everyday situations, allowing us to take a closer look at them and to achieve, with some luck and commitment, to repassify them and sometimes all we need to resignify is to stop and listen to what the other has to say. Be it as a therapist or a Kung Fu practitioner.

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An Disciple of Master Julio Camacho. Iuri Alvarenga “Moy Yau Lei” iurial1v@gmail.com

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